Saudade é um prato quente
A fome é muita
Mas a espera é necessária
Se não aquilo te mata por dentro
Saudade é um ponto de apoio
Que não é a partida nem a chegada
É o caminho do meio
Dentro de uma encruzilhada
Saudade é um fio sem conta
Que não enfeita
Nem protege
Só enlaça
Saudade é um álbum sem fotografia
É uma imagem que fica
na memória
E se desenvolve no desejo
Do vir a ser
Saudade é um mar silencioso
Sem onda
Sem peixe
Um devaneio só
Saudade me faz lembrar domingo
O cheiro de terra quente
O céu cinza
A chuva por vir
E todo o ritual silencioso
Do gotejamento acompanhado
de escuro e clarão
com muito trovejo
Saudade faz assim num parar do agora
E rouba a memória
De algo que te fez
Tão presente ali
No ouvir
No ver
No ver
No sentir
E fazer-se sentido
Saudade é bicho que não se mata
Que se retroalimenta
Metamorfoseia, descansa
E desperta numa próxima ausência
Saudade me faz buscar entender
O tempo, a distância
Os meus quereres
E as infinitas inconstâncias da vida
Eu acabo não entendendo nada
Mas sinto, muita saudade
Que envolve um misto de dor e alegria
Assim como tudo na vida.
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