
“A casa se encheu de amor. Aureliano expressou-o em versos que não tinham princípio nem fim. Escrevia-os nos ásperos pergaminhos que lhe dava Melquíades, nas paredes dos banheiros, na pele do seu braço, e em todos aparecia Remédios transfigurada: Remédios no ar soporífero das duas da tarde, Remédios na calada respiração das rosas, Remédios na clepsidra secreta das mariposas, Remédios no vapor do pão ao amanhecer. Remédios em todas as partes e Remédios para sempre. Rebeca esperava o amor às quatro da tarde, bordando junto a janela. Sabia que a mula do correio não chegava senão de quinze em quinze dias, mas a esperava sempre, convencida de que ia chegar um dia qualquer por engano. Aconteceu exatamente o contrário: uma vez a mula não chegou na data prevista. Louca de desespero, Rebeca se levantou a meia noite e comeu punhados de terra no jardim, com uma avidez suicida, chorando de dor e de fúria, mastigando minhocas macias e espedaçando os dentes nos cascos dos caracóis." (pág. 68).
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