
Descrença. Desilusão. Ver Viridiana me fez sentir uma imensa apatia que não havia sentido desde de Dogville. Não se trata apenas de uma perda da fé nos princípios religiosos, trata-se de uma total descrença no ser humano. Uma percepção de que não há como mudar as coisas e o melhor que se faz é aceitar a realidade e jogar cartas. A excessiva fé de Viridiana é decepada aos pedaços. Tudo começa com a visita feita a seu tio as vésperas de se tornar freira e este declara após dias de hostilidade da visitante que era apaixonado pela mesma e que desejaria desposá-la. A noviça se escandaliza e anuncia o seu regresso ao convento. O tio envolvido pela loucura de achar a moça parecida com sua falecida esposa a pede um ultima desejo antes que parta. Viridiana cede ao pedido de usar o vestido de casamento que fora de sua tia, é enganada pelo tio que coloca sonífero na sua bebida. No amanhecer do dia o tio usa a justificativa que deflorá-la durante a noite para tentar convencê-la a deixar o convento; o que não fora feito. O segundo choque vem com a notícia do suicídio de seu tio. É dispensada do convento e obrigada a morar na casa do falecido. Fervorosa e devota como sempre leva para morar consigo diversos mendigos como ato de caridade. Dá-lhes de comer, lugar para dormir ao lado de sua casa e algumas atividades para ocuparem o tempo ocioso. Sente-se realizada e é bastante adorada pelos hóspedes. Contudo, numa noite em que se ausentara com seu primo e a empregada a mansão é invadida pelos mendigos, que fazem uma verdadeira festa, como nunca tiveram antes, uma grande celebração: a última ceia! Assim como pintado por Da Vince a última ceia de Jesus e seus discípulos, Buñuel soube fotografar perfeitamente a última ceia dos miseráveis, tendo o mendigo cego no centro da mesa. Sem dúvida nenhuma essa é a melhor parte do filme e a mais crítica. Ao retornarem para a casa, Viridiana e seu primo se deparam com o verdadeiro horror, os miseráveis se banhando aos vinhos caros,a sujeira e asperidade tomando conta do ambiente. O primo é espancado e ela violentada. Perde por completo sua fé. A última cena mostra perfeitamente isso. A ida ao quarto do primo bastardo que tentou a seduzir durante tanto tempo, é demonstração de sua desilusão e a vontade do “pecado”. O jogo de cartas finaliza a banalização completa, onde o sedutor se depara entre os olhares da prima e da amante, e jogam cartas. Esse pessimismo e conformismo de Buñuel diante da realidade me deixaram um tanto confusa. Não foi ele mesmo quem disse que o artista não poderia se conformar diante da realidade demonstrando isso em sua obra? Fica a margem para essa reflexão... (depois termino esse texto)
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