O que é o carnaval
se não essa necessidade carnal
de viver intensamente o aqui e agora?
É voltar a ser criança, é brincar.
A rua é tomada pelos mascarados,
pela pouca roupa e pouca vergonha de quem é impedido de se despir
e impelido a se vestir numa moral barroca
que sua ausência significa violência contra mulheres, gays e travestis
Encontro de corpos numa sintonia ondulante,
numa cadência que nos faz entender a física quântica
E o que bate, seja lá onde for, é a percussão
do samba, coco, maracatu, afoxé, funk, frevo ou pagodão
São heranças de nações africanas que pra aqui foram sequestradas
Que resistiram e resinificaram seus tambores,
nas dores e nas alegrias,
na expressão espiritual do corpo carnal como nas liturgias
Onde a Igreja oficial condena,
pune o corpo enquanto pena e a todos enrijece,
o tambor com maestria mostra que corpo e espiritualidade
estão na realidade numa mesma sintonia
E dizem que carnaval é invenção de branco
Apois, só lá dentro do salão
Como muita pomba e ostentação
Como nos camarotes e festas fechadas de hoje em dia.
O preto fez sua festa na rua,
espaço condenado pela moralidade da burguesia,
destinados aos chamados “vadios”
que seriam esses os autônomos, ambulantes de até hoje em dia?
Que estão nos carnavais
mostrando as desigualdades raciais do nosso país,
assim como as cordas que separam o trio elétricos das multidões,
definindo desse jeito de cada lado as cores e tons.
Mesmo andando na contra mão da moralidade,
muita masculinidade se apropria do espaço de “liberdade”
para invadir o que não lhe é de direito,
um beijo forçado, mão que agarra, pau que roça...
Mesmo com toda contradição,
sendo um micro cosmos de nossa realidade
Como não amar essa festividade?
E desejar que nunca acabe
Que seja público e das ruas
E que todxs possam aproveitar curtindo, fazendo suas correrias
E se lembrando o ano inteiro que no mês de fevereiro
Nos espera com mais folia.

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