
“Mais salário e menos trabalho” é o grito que ecoa dos estudantes que estão do lado de fora das grades que cercam a fabrica; de dentro os operários que se encontram trabalhando mecanicamente são obrigados a cumprirem uma cota de produção prevista pela indústria.Os de fora chamam pela revolução; os de dentro tentam uma conciliação entre patrões e empregados. Esse é o paradigma que compõe A Classe Operária Vai ao Paraíso (La Classe Operaia Va in Paradiso, Elio Petri, 1971), cinema político italiano, ganhador da Palma de Ouro do Cannes em 1972.
Entre aqueles que estão preocupados com a “revolução” e os que pensam na sua sobrevivência cabe uma intercessão, como mediar as lutas entre oprimidos contra os opressores? O personagem principal Lulu Massa (Gian Maria Volonté), é um dos operários, talvez o mais reacionário de todos, que apesar de sua condição sofrida de trabalhador (teve intoxicação, úlcera e em casa não consegue mais fazer sexo com a mulher de tão cansado que chega do trabalho), é o que mais reproduz ideias burgueses de valorização do trabalho. Os mesmo ideais são vistos em sua mulher Angelli, que diz em uma fala emocionadíssima gostar da “liberdade” de poder comprar e que um dia terá um casaco de pele, porque trabalha e merece. Esse desejo é expresso como se fosse algo essencial para a sua sobrevivência, como se fosse o alcance do sublime, da felicidade; o fetiche da mercadoria é confundido com o ideal de liberdade, onde essa se condensa no poder de compra, e o mais ridículo é que esse poder é quase inoperante para essa classe operária.
Lulu perde o dedo em um acidente na fábrica. Esse acontecimento faz com que ele comece a tomar consciência das formas de opressão que lhes são impostas, principalmente quando lhe é questionado pelos estudantes sobre a condição de vida que levava. Em uma assembléia com os operários onde a maioria se sente intimidado, com medo de perdem seus empregos, votam contra a greve generalizada e contra o fim das cotas. Lulu é tomado pelo espírito de revolta por conta da decisão tomada pelos colegas e lança ironicamente a proposta de que se dobre a cota, e que todos trabalhem aos domingos e feriados, todas as noites, e levem seus filhos para ajudar no trabalho e suas mulheres para fazerem sanduíches, trabalhando sem parar, até morrer.
Lulu é demitido depois de se envolver com os estudantes em conflitos contra a polícia. Sem emprego, começa a perceber que seus ideais de sobrevivência divergem daqueles que estão propondo uma “ditadura do proletariado”, as necessidades imediatas falam mais alto do que a espera de uma revolução que vai acontecer a qualquer momento.
O personagem mais fantástico, ironicamente é o louco da história, Militina é um ex-operário e amigo Lulu, cujo trabalho fordista da industria que trabalhava o levara a loucura. Em uma conversa com o amigo, Militina se expressa de forma magnífica, apontando para os loucos do manicômio e dizendo que todos eram trabalhadores, que foi sistema que os levou a loucura, e fala quase em segredo “Lulu, é o dinheiro, todos fazemos parte do mesmo jogo, patrões e escravos do jogo do dinheiro. Nós enlouquecemos porque temos pouco e eles porque tem demais. E assim é esse inferno”.
Entre o risco da loucura por trabalhar demais e o de ficar louco por não ter como se sustentar, Massa (Lulu) opta pela sobrevivência. Consegue ser readmitido. Volta ao trabalho, ao mesmo mecanicismo, a ser o operário mais ágil e exemplar.
Não vejo pessimismo nenhum nisso, vejo apenas uma perspectiva lógica, de que infelizmente nem tudo é tão fácil de ser encarado; os idéias existem, mas precisam de uma sustentação material para aderirem aqueles que precisam comer primeiro para depois "pensar".
Apesar da volta ao cotidiano, da não revolução, do trabalho mecânico (que a câmera captou perfeitamente) existe uma utopia, Massa conta de um sonho que tivera aos colegas, que entre o barulho das maquinas é repetido aos gritos de um operário ao outro; Lulu conta que havia sonhado com um muro, que havia morrido e encontrara com Militina que lhe dissera: “vamos quebrar tudo e vamos entrar, quebramos tudo e entramos no paraíso, todos contra o muro” e o muro caiu, e estavam todos lá, todos os operários juntos.
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